quinta-feira, 29 de junho de 2017

A tragédia bateu-nos à porta: o incêndio de Pedrógão Grande

Desculpem estes longos dias de ausência, mas ainda estou a recuperar do misto de sensações que a tragédia que nos bateu à porta causou... Nem é preciso dizer do que falo, pois lamentavelmente todos vocês têm acompanhado as notícias ao longo destas duas últimas semanas.
Pensei bem antes de escrever sobre este assunto, pois nada tem a ver com a essência deste blogue. No entanto, e dado que esta calamidade afetou a região que deste criança me viu crescer, o meu concelho e os concelhos vizinhos, não podia deixar de fazer referência a este facto.
No dia 17 de junho não estávamos cá (e dou graças a Deus por isso), saímos pouco antes da hora de almoço para passarmos o fim de semana em casa dos meus sogros, sem imaginarmos o horror e o cenário que encontraríamos um dia e meio depois.
As primeiras notícias que tivemos sobre o incêndio foi ao final da tarde, quando um vizinho ligou a perguntar como se abria manualmente o portão automático que permite sair das garagens do nosso prédio, pois já não existia luz no centro da vila de Figueiró dos Vinhos. De uma forma breve e alarmada, pintou-nos um cenário de escuridão, fumo e muito medo.
Habituada que estou desde miúda a grandes incêndios, naquele momento achei que era apenas mais um de entre tantos outros. Mas quando mais tarde contactei com os meus pais, compreendi que a dimensão era outra... A minha mãe falou-me de um céu negro nunca antes visto, do barulho do som a arder a alguns quilómetros de distância, do vaivém de ambulâncias a passar e que ela não percebia a razão. E disse-me que a minha avó nunca havia visto um incêndio assim... Fiquei desanimada, triste, preocupada... Estávamos a 110Km de casa e sem nada podermos fazer, enquanto os nossos lutavam pelas suas coisas e alguns pela própria vida!
Horas mais tarde, víamos na internet o anunciar das primeiras vítimas: 19 mortos dentro dos carros, na N236-1, estrada que liga Figueiró dos Vinhos a Castanheira de Pera. Aquele número ainda hoje ecoa na minha cabeça: 19 mortos! Naquela altura pareceu-me exorbitante e neste momento é tão pequeno face ao valor final.
Como era possível que tanta gente tivesse morrido na estrada que todas as semanas me leva ao meu local de trabalho?! Percebi então que o inferno tinha descido à terra e que aquilo que iria encontrar seria um cenário devastador, doloroso, incompreensível e muito triste...
Não estava cá, não assisti ao desenrolar da tragédia, não vi aquelas chamas incontroláveis nem senti o vento fortíssimo que todas as pessoas com quem falo fazem questão de mencionar...
Mas uma coisa eu sei, semana após semana, ano após ano, faço aquela que os jornalistas teimam em chamar a "estrada da morte" e não gosto de a ouvir  ser tratada assim... Para mim será sempre a estrada das oportunidades, da esperança, aquela que me permitiu conhecer muita gente boa, onde tenho grandes amizades, de onde vem o meu "ganha-pão"!
Infelizmente aquela estrada levou-nos algumas pessoas conhecidas, alguns desconhecidos, todos eles inocentes, apanhados pelas chamas que os impediram de chegar a lugar seguro. Entre eles estavam casais, pais, mães, avós, filhos que tentavam salvar-se, pessoas com muitos sonhos para concretizar, que ainda tinham tanto para dar... Entre eles estavam anjinhos, como o meu vizinho de cima, um menino de 5 anos, prestes a entrar no 1.º ciclo, com uma vida inteira pela frente... Ainda há 15 dias atrás, ao subirmos ao mesmo tempo a escada do prédio, ele teimava em deixar-se ficar para trás, como quem queria
brincar com o meu S. e a minha C., ainda demasiado pequenos para aquilo que ele intimamente parecia desejar. Infelizmente isso nunca irá acontecer, porque ele partiu demasiado cedo. O S. e a C. tão pouco se lembrarão daquele menino meiguinho, sempre de sorriso nos lábios, não se recordarão daquele momento em que ele quis interagir com eles, mas eu farei questão de um dia lhes contar a história desse menino com quem eles não chegaram a brincar. 

3 comentários:

  1. Agora os meus olhos encheram-se de água...evitei que as lágrimas caíssem porque estou num lugar público.

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    1. Desde o dia 17 de junho que sinto essa dor! É impossível ficar indiferente, pior ainda quando toca aqueles que tão bem conhecemos! :-(

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  2. É de uma tamanha tristeza inexplicável. Eu moro em Coimbra, e a recordação que tenho desses dias terríveis era as varandas de casa cobertas de negro :( dói só de pensar nas imagens que via através da TV...

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